Uma dama para a eternidade
Capa de um exemplar de "Feira da Ladra", fascículos seriados sobre novidades e antiguidades bibliográficas, publicado em Lisboa por Cardoso Marta.
Apareceu mais uma biografia (ou melhor dizendo, minibiografia) de Natália Correia, da autoria do polémico crítico e biógrafo João Pedro George. Desta vez, o retrato é centrado na ação política da poetisa, em edição da revista Sábado.
Natália era uma virginiana regida pelo planeta Mercúrio, o paradoxal mensageiro alado dos deuses, governante de um signo de terra e íntimamente ligado ao comércio e à comunicação.
Das anteriores biografias, Retrato de Natália Correia, de Ângela Almeida, vale pelo descrição mais ou menos intimista de uma conterrânea e amiga. O Essencial Sobre Natália Correia, de Luiz Fagundes Duarte, é um breviário que ainda não li. Depois, o excelente e mais do que completo O Dever de Deslumbrar, o já clássico e icónico título de Filipa Martins. Isto para não falar de anteriores fotobiografias.
Este pequeno livro de J.P. George tem o estilo simples e de observação habituais no autor. Ele cruza informações já conhecidas com outras mais esmiuçadas. Por exemplo, a cleptomania do bibliófilo figueirense, e hóspede residente de Natália, Cardoso Marta, de quem se pode admirar, na Biblioteca Municipal da Figuelra da Foz, uma pequena doação bibliográfica.
Toda a obra de Natália está impregnada da antiguidade clássica e dos mistérios e mitos das origens, inclusivamente incursões na profecia (O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro).
A fama de mulher elegante e mundana, e o escândalo da publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, transformaram-na aos olhos dos maledicentes numa cortesã. A ideia da antologia era um projeto inacabado de Cardoso Marta. Natália queixava-se de que a maior parte das pessoas viam nela «a fêmea, o corpo. Só depois percebiam que eu tinha ideias, talento». Para posteriormente esclarecer: «Se tivesse uma grande experiência amorosa, se a tivesse concretizado na vida, não precisava de a concretizar na literatura. Como sabe, a literatura vem sempre satisfazer carências».
Há alguns livros de Natália obscuros e possuidores de segundas leituras, avisos, e simbologia hermética que tinham desaparecido da literatura portuguesa, no geral influenciada pela ideologia. Por exemplo, em A Ilha de Circe, a autora localiza na ínsula madeirense o domínio da feiticeira que acolhe a tripulação de Ulisses. Não é só romance, é também um texto de análise. As Núpcias, que ainda não li, tem Isis e Osíris como ponto de partida de 'vidas presas por fios misteriosos aos poderes do Real que no Mundo Invisível as governam'. Uma Estátua Para Herodes - o rei do território da Judeia, mandante do massacre dos inocentes - é uma leitura de teor inesperado e lógica perturbadora.
Assinalo igualmente o poema dramático Comunicação, outra obra de múltiplos reflexos, o julgamente do presente através da leitura do passado. Um mulher, a quem chamavam Feiticeira Cotovia, e que afirmava encarnar o Espírito da Cidade, denominada Lusitânia ou, ainda, o lugar de Sete Colinas, foi condenada âs chamas por práticas mágicas 'duma magia maior a que ela dava o nome de Poesia'. 'Quando ouviu a sentença, a misteriosa criatura anunciou que a cidade arderia com ela'. A profecia cumpriu-se, qual Cassandra em Tróia. Trata-se de uma composição de asserções retumbantes, inquisitoriais, cuja conjuntura milenar confunde o leitor e a crítica interpretou como a provocação ao regime censor do Estado Novo. Deixando de lado similitudes ideológicas, quem pode negar, neste cenário delíquo, a sucessão, por exemplo, de autos de fé e outros cataclismos? O certo é que Natália viveu desvinculada de qualquer corrente literária. Unicamente simpatizou com o comportamento marginal do grupo surrealista de Lisboa.
E sobre a obra de Natália Correia há sempre muito mais para dizer.







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