Haja o que houver
A visita ao Museu Romântico do Porto é um privilégio sublinhado pelo encanto do lugar. As escarpas do primitivo rochedo, onde foram implantados os Jardins do Palácio de Cristal, cuja fruição acompanha as majestosas vistas do Douro explanando-se no oceano, proporcionaram a adaptação de várias edificações contíguas. Entre elas, está o museu, que pretende representar o ambiente envolvente e projetado naquela área na década de 1860.
Desta feita, seguindo o aprazível caminho rústico da Rua de Entre-Quintas, descobre-se ao virar da esquina o miradouro da Quinta da Macieirinha com o imóvel assinalado e o museu inaugurado em 1972. O edifício pertenceu à família Pinto Basto, creio que a mesma do par do reino que fundou a fábrica de porcelanas da Vista Alegre. Célebre por ter sido a última morada do rei da Sardenha e Piemonte, Carlos Alberto (1798-1849), a casa mantinha a sua memória, na reconstituição de dependências, como a capela, o quarto de dormir, sala de estar, a partir de aguarelas e litografias da época. O nome do museu e o recheio afiguravam uma moradia burguesa devedora da era romântica e vitoriana.
O problema deu-se com a transformação no interior. O que eram até aí aposentos mobilados com adereços, é agora uma série de salas de exposições, desligadas - mantendo só o oratório oitocentista -, procurando conter também uma inclinação simbólica universal da corrente modernista europeia. Os visitantes são acolhidos numa sala com reproduções de pinturas gigantes e parietais de Caspar David Friedrich para ressignificar o norte e o gelo. Obras de António Carneiro ou de Aurélia de Sousa, e muitos outros, estão expostas. Com o antigo mobiliário longe da vista, são exibidos espólios de coleção e também exposições temporárias de arte contemporânea.
Já em 1964, o escritor João de Araújo Correia, reguense de inflamado fervor tripeiro, apregoava a falta do museu da cidade do Porto. Para fixar a alma citadina aos nossos olhos, além de Camilo, Arnaldo Gama, Júlio Dinis, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Raul Brandão e António Nobre, propunha ele, através de gravuras, pinturas e, até, fotografias, o desfile dos pregões de garganta cristalina, rendas, cinturas finas de mulheres da Maia, charpas esvoaçantes, a Velha Foz... Diga-se, aliás, que o primeiro nome do Museu Nacional Soares dos Reis foi Museu Portuense. Araújo Correia exigia a especificidade, como se a primeira fase do Museu Romântico falásse do Porto e esta segunda do mundo. As críticas continuam, veja-se aqui.
Eu nada tenho a opor! Acho sempre inolvidável uma ida ao Porto, incluindo ao seu Museu Romântico, principalmente no contexto de uma valiosa e informativa visita guiada.


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