Os olhares pétreos
Passei muitas vezes pela Sé Velha de Coimbra e nunca dei conta do esplendor da Porta Especiosa. No passado, lembro-me só de escutar um assombrado elogio de alguém. Sendo um acrescento posterior no templo, e porque os séculos foram gastando as pedras e as suas cores, é, de facto, quase nula a perceção da Porta do ponto de vista térreo do transeunte. Isto, perante uma composição escultórica elevada, cujo topo merece o exame atento. A minha admiração aconteceu depois de uma visita guiada. Esta, apontou pormenores, aspetos, identificações, mas a mensagem profunda, no contexto dos símbolos escolhidos, está perdida. Tal como os livros, as pedras não dialogam connosco. O motivo desta visita foi conhecer os trabalhos do escultor francês João de Ruão (Ruão, 1500 - Portugal, 1580). Cunhado como "artista de elite" e "um intelectual", Ruão operou com oficina em Coimbra e foi considerado o introdutor dos valores renascentistas em Portugal...