Os olhares pétreos

         Passei muitas vezes pela Sé Velha de Coimbra e nunca dei conta do esplendor da Porta Especiosa. No passado, lembro-me só de escutar um assombrado elogio de alguém. Sendo um acrescento posterior no templo, e porque os séculos foram gastando as pedras e as suas cores, é, de facto, quase nula a perceção da Porta do ponto de vista térreo do transeunte. Isto, perante uma composição escultórica elevada, cujo topo merece o exame atento. A minha admiração aconteceu depois de uma visita guiada. Esta, apontou pormenores, aspetos, identificações, mas a mensagem profunda, no contexto dos símbolos escolhidos, está perdida. Tal como os livros, as pedras não dialogam connosco.

        O motivo desta visita foi conhecer os trabalhos do escultor francês João de Ruão (Ruão, 1500 - Portugal, 1580). Cunhado como "artista de elite" e "um intelectual", Ruão operou com oficina em Coimbra e foi considerado o introdutor dos valores renascentistas em Portugal. Concebeu magníficas e expressivas obras com o calcário da pedra de Ançã, na maioria retábulos que contêm histórias em vários quadros de tamanhos diversos, construção, monumental ou não, para colocar em cima ou atrás da mesa de altar. Assim, os presentes na eucaristia poderiam observá-los, compenetrando-se nas maravilhas escultóricas, enquanto o pároco se dirigia ao altar, de costas para os fiéis.

        Ora, olhando um retábulo de João de Ruão, o que vemos? Eu vejo um retângulo erguido ou deitado com figuras em ação ou em adoração, outras em pose de retrato, o busto ou de corpo inteiro, em alto e baixo-relevo, enquadradas por elementos arquitetónicos de estilo grego - colunas, capitéis, frisos, frontões, etc. -, incluindo-se, nestes elementos, a gravação de desenhos entrelaçados ou grotescos de inspiração romana. Estas foram as novidades renascentistas acrescentadas, por exemplo, a um templo românico como a Sé Velha conimbricense. Possivelmente, a ordem para retirar das paredes muitos azulejos hispanos-árabes, que as revestiam, para voltar a admirar o poder e a beleza das pedras nuas do edifício, foi uma decisão comparativa de afirmação artística contrária.

        Desta maneira, estes retábulos são os testemunhos em pedra e em miniatura dos cenários do teatro da antiguidade greco-latina. Na Grécia, eram estruturas efémeras com andaimes de madeira, que evoluíram para armações de pedra, representando a fachada de um palácio, templo ou casa, com os seus varandins, portas e janelas, tudo limitado por colunas, pelos quais surgiam atores. Os teatros romanos vão consubstanciar estes cenários, que podem ser sintetizados nos retábulos renascentistas e na supramencionada Porta Especiosa.

        Cabe assinalar a descida da vibração artística. Ou a sua limitação em termos de audiência. No teatro helénico os espetadores eram convidados a assistir e ouvir o que precisavam de saber. E todos se falavam. Além disso, Homero era cego e recitava, tal como os aedos, por todos os lugares e para todos os públicos.

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