Um dos romances mais lidos do século XIX

         Quando encontrar este blog e abrir esta página, saiba o leitor que se vai falar de um best-seller português novecentista. Eu não o conhecia, mas era de leitura ainda sugerida nos colégios femininos das moças da minha idade (a par com o livro Dezoito Anos, de Esther de Lemos).

        Digamos assim: segundo Ernesto Palma, no seu pequeno livro A Orientação da Leitura, existem duas tradições na dependência literária - a via cultural e a via popular -, uma conclusão extraída das requisições das bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian. Nos meios citadinos, era imperdoável ignorar referências a frases e a personagens d' Os Maias ou d' O Primo Basílio. Como exemplos extremos das duas vias, temos Os Lusíadas e A Rosa do Adro. No entanto, há obras literárias que reúnem simultaneamente a tradição cultural e a tradição popular. É o caso de Amor de Perdição e As Pupilas do Senhor Reitor.

        Temos de nos precaver contra os clichés que os meios de comunicação mais conhecidos fabricam acerca da República e dos seus republicanos e que nos fazem crer que, no caso de A Rosa do Adro (1870), não passa de um enredo melodramático e meloso. O autor, Manuel Maria Rodrigues, caiu hoje no esquecimento. Da sua pequena obra destacou-se este romance, possivelmente conhecido (ou não) pelo mestre realista de Os Maias, o qual criticava a literatura sentimental que anestesiava o país. Rodrigues tem, todavia, uma escrita primorosa, legível, que engenhosamente esconde a complexidade da forma como foi composta. Este é o enredo:

        Junto ao adro da igreja de uma aldeia minhota, mora a jovem Rosa e a avó. Na casa paroquial reside o jovem António, protegido do pároco, que renunciou aos votos sacerdotais e nutre sentimentos pela moça. Quando o finalista de Medicina, Fernando, filho de ricos lavradores, visita a aldeia, começa a namoriscar a atraente Rosa, com a qual se compromete a casar. António espia todos os movimentos do casal, vendo como falsas as promessas de Fernando. O estudante regressa ao Porto para acabar o curso, com a promessa de manter a correspondência sentimental com Rosa, o que agrada à bonita moça. Na cidade, porém, visitando regularmente a casa da Baronesa, uma conterrânea, cede ao compromisso matrimonial com a sua filha única, Deolinda. Fica planeado o casamento para quando obtiver o diploma e regressarem à aldeia. A vida, que se previa harmoniosa, vai sofrer, no regresso ao torrão natal, os episódios mais alucinantes.

        Rosa, com a ausência de missivas do prometido noivo, cai gravemente enferma. Deolinda, ainda antes do seu casamento, visita-a, porque são amigas de infância. Em conversa, esta começa a vislumbrar o drama e as causas dos enganos da rapariga. Entretanto, António, despeitado, monta uma cilada a Fernando, convocando dois assassinos para chamarem o médico a meio da noite e o matarem. Acabam por feri-lo gravemente. Rosa agoniza e Fernando também. Deolinda sugere uma ação que vai para além da vida e da morte: convence Fernando a selar os votos conjugais com Rosa, cumprindo o dever e a promessa inicial, enquanto Deolinda e a mãe se retiram para um convento. Mas, antes de falecer, Rosa descobre que é irmã de António. Este acaba por se suicidar depois de confessar ao pároco ter sido ele o executor de Fernando.

UM ARGUMENTO ABSCONSO DO REALISMO 

        Como vemos, a ligação entre Rosa e António, embora não consumada, remete para o incesto e relembra o tema queiroziano. Em 1870, Eça busca inspiração e futuros temas romanescos entre as tarefas profissionais. Publica o romance policial O Mistério da Estrada de Sintra, escrito em folhetim com o amigo Ramalho Ortigão. Começa a publicar também no Diário de Notícias os relatos de viagens baseados na sua passagem pelo Egito, onde assistiu à inauguração do Canal de Suez. Aderiu às ideias inovadoras do grupo da Geração de 70

        Eça conta relações incestuosas em Os Maias e n' A Tragédia da Rua das Flores. O ensaísta Harold Bloom interpreta em Eça o tema do incesto como "uma obsessão, que foi a sua metáfora mais perturbadora para descrever a decadência emocional do Portugal do século XIX". Já Peter Gay, em A Paixão Terna, diz que a motivação oculta do amor condenado de Carlos da Maia é um "lamento simbólico pela cultura endógoma, claustrofóbica e improdutiva de Portugal". Gay observa ainda que a história d' Os Maias trata "claramente de um tabu ignorado", mas "com ligeireza de toque, quase em tom casual, que parece inadequada para uma leitura tão séria".

        Não há conclusão. Serve o presente texto para realçar um autor além de Eça que cruza o incesto numa narrativa sentimental ou ultrarromântica, com laivos d' O Noivado do Sepulcro, de Soares dos Passos. Não havendo o despudor da relação física, como acontece em Os Maias (1), a eventualidade do incesto em A Rosa do Adro não nos sujeita à estranheza causada por fantasias literárias quase desentranhadas do espírito e corpo do próprio autor. Ao contrário, Rodrigues compõe o aguilhão de forma proporcionada.

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        (1) No que a Eça diz respeito, destaco ainda as análises de Pedro Luz em Sob o Manto Diáfano do Realismo - Psicanálise de Eça de Queiroz sobre a filiação de Eça, em dúvidas que sugerem palavras proibitivas.

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